Clima e Resistência a Bt

Interferência de mudanças climáticas na resistência da lagarta da espiga do milho a plantas geneticamente modificadas

As mudanças climáticas ocorrem devido ao aumento da temperatura média da Terra. Desde que foi diagnosticado o aquecimento global inúmeros fóruns e pesquisas a nível mundial têm sidos realizados. As consequências desse fenômeno podem ser devastadoras não apenas para o homem, mas também para o meio ambiente como um todo. Em ecossistemas agrícolas foi verificado que o aumento de temperatura pode estar interferindo com a resistência de pragas em plantas geneticamente modificadas (GM).

O uso de plantas GMs, desde que foram lançadas no mercado em 1996, tem se espalhado pelo mundo. Em culturas como o milho e a soja, através da engenharia genética, foram introduzidos genes da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt) que produzem uma proteína tóxica que matam insetos. Assim, viabilizou-se a produção de toxina inseticida pela planta, em cultivares comerciais, para controlar diferentes grupos de pragas de insetos.

A lagarta da espiga (Helicoverpa zea) é uma das principais pragas do milho e com o uso intensivo de milho transgênico no campo, esta paulatinamente começou a desenvolver resistência ao milho portador de toxina Bt (i.e., milho Bt). Recentemente entomologistas da Environmental Protection Agency (EPA EUA) e da Universidade de Maryland (EUA) publicaram um artigo na Royal Society Open Science que discute a relação entre a resistência da lagarta Helicoverpa zea e milho Bt sugerindo que temperaturas mais elevadas podem acelerar o desenvolvimento de resistência em insetos pragas, sendo a mudança climática uma das possíveis causas da resistência da lagarta da espiga a essa cultura.

Os pesquisadores da EPA verificaram que entre 1996 e 2016 áreas cultivadas com o milho Bt e temperaturas elevadas correlacionaram positivamente com o aumento da resistência da lagarta da espiga. Eles alertam que temperaturas mais altas, quando combinadas com o plantio intensivo de milho Bt, podem não apenas degradar proteínas Bt da cultura, mas também acelerar o desenvolvimento de insetos. Tal fato permite um maior número de gerações da lagarta da espiga a cada temporada de plantio, possibilitando que um número maior de lagartas sobreviva a um período de dormência e levando a expansão dos insetos resistentes em direção ao norte dos Estados Unidos. A consequência disto é um aumento ainda maior na pressão de seleção para resistência a proteínas Bt nesta praga favorecendo a evolução de sua resistência ao milho transgênico.

Em entrevista dada a Sociedade Entomológica Americana, os autores relatam que: 1) aproximadamente 80% do milho plantado nos Estados Unidos nos últimos anos tem sido o milho Bt, 2) medidas para controlar e retardar o desenvolvimento de resistência ao Bt entre as pragas de milho é crucial, e 3) que medidas para minimizar as alterações climáticas só se tornam mais urgentes. “Precisamos da expansão do monitoramento de resistência em todas as áreas de alta produção de milho”. Os autores também enfatizam a necessidade de incorporar os processos evolutivos afetados pelas alterações climáticas em programas de manejo de resistência.

 

N. M. P. Guedes

20-09-2017

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