Hormese – “o que não mata, fortalece?!”

Hormese é um termo usado para descrever um fenômeno associado a compostos tóxicos que, em baixas doses, mostram efeito estimulatório ou benéfico ao organismo exposto e em altas doses mostram efeito inibitório ou tóxico. Esta inversão de resposta é dita bifásica, ao contrário da resposta monofásica usual (i.e., aumentando-se a dose, aumenta-se o efeito tóxico). Este fenômeno foi anunciado inicialmente já em 1943 por Southam e Ehrlich, no periódico Phytopathology, quando relataram a relação dose-resposta bifásica de extratos de cedro vermelho em diferentes linhagens de fungos e referiram-se ao fenômeno como hormese, que em grego seria ‘para excitar’. A partir daí vários outros trabalhos demonstrando o efeito hormético foram publicados, principalmente na área médica, mostrando que existem evidências de que baixos níveis de esforço físico diminuem o estresse oxidativo, baixos níveis de álcool podem reduzir doenças cardíacas e derrames, e que a exposição ao estresse leve e repetitivo tem efeitos anti-envelhecimento. Um dos pesquisadores de destaque na área é o toxicologista Edward Calabrese, que observou o efeito hormético de muitos compostos químicos em microorganismos, plantas e animais. No entanto houve poucas tentativas de se aproveitar esta resposta adaptativa em outros organismos com um objetivo prático.

Há ampla evidência de que hormese ocorre em insetos agrícolas expostos a baixos níveis de estresse. Grande parte desta investigação concentrou-se em insetos-praga e como a exposição a baixas doses de pesticidas pode aumentar a reprodução e causar problemas de erupção e ressurgimento pragas ou mesmo resistência a inseticidas. Contudo, alguns estudos têm demonstrado que processos biológicos em insetos benéficos também podem ser favorecidos pela exposição a baixos níveis de estresse. Existem evidências mostrando que o estresse hormético pode ser aplicado a modelos biológicos, a fim de aumentar a sua reprodução ou longevidade, aparentemente sem comprometer a aptidão biológica global. Isto sugere que os mesmos princípios podem ser aplicados para aumentar a eficiência de criação massal de inimigos naturais para o controle biológico.

Hormese induzida por inseticidas tem sido relatada em espécies de pragas e inimigos naturais de artrópodes. Pragas como mosca das frutas, mosca doméstica, caruncho do milho, ácaros vermelho e rajado, e inimigos naturais como percevejos predadores (Podisus, Supputius e Geocorys), e bicho-lixeiro (Chrysopa) têm sido relatados na literatura como exibindo hormese induzida por pesticidas. Mesmo assim os estudos feitos com inimigos naturais têm sido realizados em um número bem menor de espécies, inferior aos com pragas agrícolas. Além dos efeitos importantes para o manejo de pragas, a hormese pode exibir ainda efeito positivo em plantas cultivadas já que pode favorecer o rendimento e, consequentemente, o aumento de produção mediante a exposição destas a baixas doses de pesticidas usados no controle de pragas. Contudo, esta possibilidade ainda não foi explorada.

N.M.P. GUEDES

30/01/2018

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