A última notícia escrita por mim no site da ENTO+ foi sobre o balanço de água em insetos. Relatei perda e ganho de água em insetos terrestres. Contudo, volto a este assunto porque esta semana me deparei na internet com uma matéria que me chamou a atenção e que tem relação com a notícia por mim escrita anteriormente. A notícia trata sobre algumas espécies de besouros que inspiraram um designer a produzir um equipamento que permite a coleta de água para moradores do deserto da Namíbia.

O deserto da Namíbia, localizado no sudoeste da costa africana, é um dos locais mais quentes do mundo. Nele habita uma variedade enorme de besouros da família Tenebrionidae que, através da sua fisiologia e comportamento, conseguem explorar e sobreviver nesse ambiente inóspito. Espécies como Onymacris unguicularis e O. bicolor utilizam o seu corpo para coletar água através de uma combinação de áreas com reentrâncias ou cavidades que são recobertas com uma substância cerosa altamente hidrofóbica e áreas hidrofílicas que aumentam a captação de água através da transformação de vapor em água. Nesse ambiente seco, a captação de água é feita pelo inseto durante a manhã, quando o tempo está mais úmido e com a presença de nevoeiros. Quando a água precipita ela é coletada nas cavidades do corpo do inseto que daí, através da movimentação de sua cabeça e do élitro, vão para a boca do inseto.

Em período longo de ausência de chuva, ter todo esse aparato de coleta de água é vantajoso para esses insetos. Foi observado no deserto da Namíbia que os insetos que conseguem captar água e consequentemente bebê-la, conseguem sobreviver mais eficientemente tanto no período úmido quanto no período seco de poucas chuvas. Em contraste, os insetos que não apresentam essa adaptação desaparecem ou declinam a menos de 1% da população nesse ambiente.

Esse assunto tem inspirado não apenas cientistas interessados em estudar como o corpo do inseto, através da sua estrutura química e fisiológica, além do seu comportamento, conseguem capturar água do ar. Tal fenômeno veio também a inspirar o designer Kitae Pak, da Yanko Design (veja mais em yankodesign.com), a criar um dispositivo feito em forma de cúpula que recolhe, através do nevoeiro, gotas de água que precipitam em um reservatório para posterior consumo. Quem tiver interesse, vale a pena entrar no site da Yanko Design pois tem um pequeno vídeo feito pela BBC que mostra o besouro bebendo água. Este tipo de criação com certeza é bem-vinda não apenas para ser utilizada no deserto da Namíbia, mas também em regiões similares distribuídas pelo planeta. O fenômeno relatado pode servir também como inspiração aos nossos designers para projetar outro equipamento que possa ajudar a coleta de água em regiões brasileiras áridas, como o sertão nordestino.

 

Guedes, N. M. P.

A disponibilidade de água é fundamental para que qualquer organismo possa funcionar e sobreviver de forma adequada no ambiente em que habita. Além de ser um fator crucial para que o inseto tenha um ganho de água, a disponibilidade de água é ainda de extrema importância para a abundância e a distribuição desses organismos no ambiente. Em algumas situações é vantajoso para os insetos ter tamanho pequeno. Contudo com relação a perda de água, isso se torna uma desvantagem devido à superfície total do seu corpo ser bem maior do que o seu volume tornando a área de evaporação maior e, consequentemente, maior a perda de água.

Esse problema é exacerbado em condições de clima quente e seco, o que os torna particularmente susceptíveis a desidratação levando os insetos terrestres a enfrentarem a dessecação. Em ambiente quente e seco foi observado que os insetos exibem uma variedade de diferenças aparentemente adaptativas visando reduzir a perda de água, são elas: a baixa permeabilidade da cutícula, reduzida quantidade de água excretada e diferenças na quantidade e composição de lipídios da cutícula.

O conteúdo de água dos insetos varia grandemente entre 40 e 90% do seu peso e essa variação ocorre entre espécies, populações, indivíduos e mesmo estágios de desenvolvimento. Geralmente ela é baixa em insetos com grandes reservas de gorduras ou cutículas espessas. Para que o inseto possa sobreviver a falta de água ele precisa utilizar de um a três mecanismos fisiológicos, tais como exibir taxa reduzida de perda de água, armazenar maior quantidade de água na forma de reservatório ou fonte potencial de água metabólica e, por fim, tolerar a perda de uma fração de uma fração relativamente grande de água do corpo.

A tolerância à perda de água por artrópodes é bem conhecida, sendo a maioria dos insetos capazes de manipular uma perda modesta de 20-30% do conteúdo de água do seu corpo antes de morrer por dessecação. É interessante observar que alguns besouros apresentam valores extremos de perda de água entre 17% (baixo) e 89% (alto), valores estes letais à sua sobrevivência.

Os insetos adaptados a viver em ambientes secos são otimizados para a retenção de água e tem baixas taxas de perda de água, daí pode ser concluído que insetos que vivem em regiões de alta umidade apresentam uma alta taxa de perda de água. Alguns besouros, devido ao aumento de suas reservas metabólicas de gordura adicionado a sua cutícula espessa e impermeável, conseguem em condições de ar seco e sem nenhum alimento ou água, reter água durante o período de quiescência (baixa taxa de perda de água) e ter uma longevidade impressionante de quase três meses. Estas características sugerem baixas porcentagens de conteúdo de água no corpo do inseto, o que é ideal para a sua sobrevivência em ambientes secos por requerem menos água no corpo para funcionar. A retenção de água no corpo destes insetos se relaciona perfeitamente com a preferência deles por ambientes secos e áreas semidesérticas.

Outra forma de perda de água seria através do sistema respiratório; neste caso os insetos minimizam a perda de água pela menor liberação possível de água no estado vapor. Muitos insetos abrem e fecham os seus espiráculos num padrão claramente periódico. Quando os espiráculos estão fechados, níveis de dióxido de carbono (CO2) aumentam dentro do inseto e o vapor de água é retido. Quando os espiráculos subsequentemente abrem-se, o CO2 é liberado e uma perda relativa de vapor de água é maximizada.

Uma maneira eficiente de minimizar a perda de água no corpo dos insetos é a reabsorção de água pelo reto quando os insetos eliminam suas fezes. Muitos insetos que vivem em regiões áridas ou desérticas sobrevivem devido a este mecanismo que elimina fezes extremamente secas.

Além dos mecanismos fisiológicos, algumas espécies de insetos podem formar grupos de indivíduos com o objetivo de minimizar a perda de água. A agregação de coespecíficos serve para criar e manter um microclima local. Essa característica comportamental foi observada na joaninha Hippodamia convergens (Coleoptera: Coccinellidae), onde vários indivíduos agrupam-se debaixo de folhas durante a diapausa ou enquanto se alimentam de pulgões. A agregação em algumas espécies parece ser mais acentuada do que em outras, parecendo que quanto maior a densidade de besouros mais baixa é a taxa de perda de água de seus indivíduos.

A maneira mais simples de captar água no ambiente é através da ingestão de água livre. Para a maioria dos insetos, entretanto, a água encontra-se disponível de forma intermitente e a intervalos irregulares. Isto é um problema para insetos que vivem em habitats secos onde há pouca água livre disponível. Em contraste, os insetos que se alimentam de plantas suculentas conseguem obter água diretamente do alimento, enquanto os que se alimentam de grãos nem sempre, exigindo dessa forma que esses organismos busquem água em outro local ou de outra forma. Além da água livre os insetos que vivem em condições climáticas extremas como ambientes áridos conseguem um ganho de água significativo a partir da água gerada pela oxidação de materiais orgânicos (água de oxidação), bem como pela captação de água através da superfície do corpo, neste caso isto depende da umidade e varia entre as espécies.

Estudos sobre comportamento e fisiologia são de grande importância para se obter sucesso no controle de insetos em qualquer ambiente. Haja visto a iniciativa de utilizar-se o balanço de água para o controle destes indivíduos privando-os de água. Recentemente, a busca por métodos de controle alternativos de pragas tem sido de grande importância. Novas pesquisas continuam a serem desenvolvidas e testadas como a utilização de pó inerte que age nos insetos praga removendo a camada de cera da cutícula do inseto levando-o a morte por dessecação. O uso de terra diatomácea (um exemplo de pó inerte), por exemplo, tem sido empregado como um método alternativo ao controle químico de pragas principalmente de pragas de grãos armazenados. Contra estas prevalece principalmente o uso de fumigantes, piretróides e fosforados que tem levado aos velhos problemas como impactos letal e subletal em organismos não-alvo e resistência a inseticidas, que consequentemente possibilitam a ressurgência dessas pragas.

Resumindo, a água não é apenas importante para a vida do ser humano, mas também para manter a vida, possibilitando o funcionamento e a manutenção dos outros seres vivos que habitam o nosso planeta. Apesar das limitações impostas aos insetos devido ao seu pequeno tamanho, habitat seco e fonte de alimento, o meio-ambiente tem sido explorado por eles com sucesso devido aos seus mecanismos reguladores de conservação de água. Para isso, através da seleção natural, os insetos tiveram que se adaptar não apenas minimizando a perda de água, mas também desenvolvendo mecanismos que possibilitassem a captação de água, eliminando desta forma aqueles indivíduos menos adaptados e selecionando aqueles mais adaptados a um ambiente específico. Por isso é importante conhecer como os insetos funcionam e comportam em ambiente com falta de água para que se aplique esse conhecimento em outras áreas de pesquisa, incluindo aí, neste caso, o manejo integrado de pragas. Isto porque o comprometimento do balanço de água possibilita controle efetivo de insetos, a exemplo do uso de terra diatomácea no controle de insetos de produtos armazenados.

 

Guedes, N. M. P.

Muitas questões estão sendo levantadas ultimamente sobre o mapa da fome no mundo, e esta talvez seja a principal preocupação nos dias de hoje. Desperdício de alimento, perdas em produtividade, poluição e deficiência nutricional são alguns dos aspectos questionados por todos aqueles que se preocupam com o próximo. Mas então, o que a entomologia tem a ver com isso?

Por serem o grupo de maior abundância sob a face da Terra, os insetos estão presentes em todos os ambientes onde se produz alimento. De uma maneira ou de outra, estes pequenos organismos estão envolvidos na produção de alimentos, vegetal ou animal.

Se por um lado os insetos diminuem a produção de alimento com a transmissão de doenças e pelo próprio consumo de vegetais, por outro lado a entomofagia (consumo destes organismos) pode ser uma alternativa viável para suprir algumas necessidades nutricionais. Mediante esta possibilidade a FAO já vem questionando a algum tempo o consumo de insetos, principalmente em países de baixa renda e com problemas de desnutrição.

O valor nutricional dos insetos chega a ser tão variado quanto à diversidade de espécies existentes nesta classe de organismos. Por este motivo é difícil se comparar os teores nutricionais entre insetos comestíveis com os alimentos comumente consumidos pelo ser humano. Mas, de uma forma geral, os insetos são consideravelmente mais nutritivos do que as outras fontes de alimento.

 

Além de excelente fonte de proteína, os insetos possuem também um elevado teor nutricional. Muitas espécies possuem uma quantidade de vitamina D elevada (aproximadamente 165 U.I. por 100g) bem como a vitamina B2 (0,66 miligramas /100 g), vitamina C (17,60 miligramas / 100 g) e Omega-3 (3,6 gramas / 100g). Como podemos observar, esta é uma excelente fonte nutricional, superando os alimentos convencionais como carne bovina, suína e até mesmo os peixes.

Acha que acabou? Não! Os benefícios vão além dos nutricionais. Outro ponto positivo para o consumo de insetos está em sua taxa de conversão alimentar. Esta taxa consiste na relação entre a quantidade de alimento consumido pela quantidade de alimento produzido. Os animais de sangue quente possuem uma taxa de conversão alimentar elevada. O gado de corte, por exemplo, consegue converter aproximadamente 8kg de alimento em 1kg de carne para consumo humano. Já os insetos são bem mais eficientes e conseguem converter entre 1,5 e 2 kg de ração em 1 kg de carne comestível, e fazem isso eliminando aproximadamente 100 vezes menos óxido nitroso (um agravante do efeito estufa).

Mesmo com os aspectos culturais e falta de divulgação, estes são uma boa fonte para a alimentação humana ao redor do globo. Só para se ter uma ideia, estima-se que cerca 1500 espécies ao redor do mundo já fazem parte da dieta do ser humano. Seja consumido vivo ou desidratado, os insetos podem ser uma alternativa viável, com elevado teor nutricional e ecologicamente correto para se incluir em nossos cardápios. Basta uma rápida busca na internet que nós encontramos diversas receitas de doces, salgados, pães e molhos com insetos como ingredientes principais.

Bon appétit.

 

Chediak, M.

Importância

A polinização consiste na transferência de grãos de pólen da antera de uma flor para o estigma da mesma ou de outras flores e é tida como uma consequência natural da atividade de um organismo na flor. O polinizador está geralmente à procura de néctar e pólen quando os grãos de pólen se aderem ao corpo do animal. Quando este mesmo animal visita outra flor pela mesma razão, o pólen cai no seu estigma podendo resultar na fecundação e consequente sucesso reprodutivo da planta.

O processo de polinização e fecundação da planta ocorre quando as abelhas estão coletando néctar nas flores e é através dele que são produzidas as frutas, legumes e amêndoas que nos servem de alimento. Exceto algumas plantas agrícolas como o milho, arroz e trigo, onde o vento tem papel importante na polinização, uma grande diversidade culturas agrícolas normalmente dependem da polinização por abelhas. Sendo assim as abelhas, através da polinização, desempenham um papel vital para o ser humano no que se refere à diversidade, qualidade e quantidade de produção de alimentos já que polinizam a maior parte das plantas cultivadas de relevância sócio-econômica existentes. Para se ter uma noção, aproximadamente uma a cada três mordidas de alimento que ingerimos é produzida devido à polinização das plantas pelas abelhas. No entanto, esses insetos produtores de mel e benéficos à produção agrícola estão sendo reduzidos em número e diversidade a cada ano em algumas regiões do globo.

Uma visão sobre o problema

Há pouco mais de uma década o interesse em se estudar abelhas não era tão intenso quanto é atualmente. Isso mudou a partir de 2006 devido ao CCD (em inglês colony colapse disorder), que traduzido para o português seria a desordem do colapso da colônia. Esse fenômeno ocorre quando as abelhas operárias coletoras de pólen deixam abruptamente a colmeia, abandonando a rainha e as abelhas jovens. A disseminação do CCD, principalmente nos Estados Unidos, popularizou a preocupação com o possível declínio de abelhas passando a fazer parte do noticiário e tendo como consequência o aumento de trabalhos publicados sobre o assunto.

O caso é que o problema do declínio das abelhas vai bem além do que o CCD, como reconhecido atualmente, já que em alguns casos o mesmo não ocorre e mesmo assim as colônias de abelhas diminuem a cada ano. Esta perda é atribuída a muitos fatores como a ação de parasitas, doenças, perdas de habitat natural, mudanças climáticas e más práticas agrícolas, entre elas o uso de pesticidas.  Apesar de não haver um consenso sobre o assunto, os pesquisadores apontam os pesticidas, devido a sua gama de efeitos prejudiciais aos insetos, como um importante fator no declínio das abelhas.

Como amenizar ou solucionar o problema?

Estamos numa encruzilhada onde a sobrevivência das abelhas depende da estreita colaboração entre políticas públicas, consumidores, apicultores, produtores agrícolas e pesquisadores. É importante a adoção de políticas públicas que incentivem o uso de boas práticas agrícolas e incentivem a policultura em detrimento da monocultura possibilitando um um “habitat natural” atrativo às abelhas.

É fundamental, também, saber por parte dos consumidores que a compra e consumo de mel é bom para as abelhas. Os apicultores precisam de nosso apoio; vender mel significa ajudar a cuidar de suas abelhas. Apesar de que, hoje, o setor apícola não sobrevive apenas com a produção de mel.  Por isso, os apicultores principalmente nos EUA, Canadá e parte da Europa fazem contratos com produtores rurais que pagam pela polinização do seu cultivo o que possibilita a eles um rendimento adicional de cerca da metade da receita com a venda do mel. Uma vez contratados os apicultores viajam com suas abelhas, seguindo as estações de polinização.

Outro ponto importante seria a diversificação de cultivos feito pelos produtores rurais, entre suas linhas de plantio, de maneira a possibilitar uma dieta diversificada para estes polinizadores. Esta medida é importante porque muitas plantas utilizadas na agricultura não apresentam um conteúdo elevado de néctar e, se queremos as abelhas sadias, o primeiro passo é alimentá-las bem.

Resumindo: os apicultores precisam do apoio do consumidor e de produtores rurais para aumentar seu rendimento financeiro e continuar a produzir mel; o produtor rural precisa de maior e melhor produção agrícola; e os pesquisadores precisam de dinheiro para realizar as suas pesquisas. Neste caso é importante que tanto o apicultor como o produtor agrícola tenham a noção que as pesquisas sobre as abelhas não devam ser financiadas apenas pelo setor público, onde a aprovação de projetos e a liberação de recursos são normalmente demorados. O declínio das abelhas é assunto de urgência. Assim, as abelhas necessitam que o apicultor e o produtor agrícola também invistam em pesquisa possibilitando a liberação de fundos mais rapidamente do que o setor público.

Considerações

As abelhas são organismos importantes para a ecologia, a estabilidade e a conservação dos ecossistemas terrestres, além de economicamente importantes como polinizadores em sistemas agrícolas. Sabemos que precisamos das abelhas e dependemos delas, contudo isto não quer dizer que “o desaparecimento das abelhas levará a extinção da espécie humana”. Isto quer dizer sim que a vida sem as abelhas só tornaria a vida humana mais difícil. Se as abelhas desaparecem nós ainda teremos alimento, contudo não teremos variedade pois esta diversificação alimentar ficaria fora do alcance de muitas pessoas e com certeza a nossa qualidade de vida seria comprometida. Por isso é importante que a sociedade como um todo tenha consciência e invista na solução do problema.

Guedes, N. M. P.

Carunchos, como Sitophilus spp., Zabrotes subfasciatus, Callosobruchus maculatus, são importantes espécies pragas de grãos armazenados que se espalharam pelo mundo. As fêmeas destas espécies põem ovos na superfície de grãos de milho, feijão, etc., estes eclodem e liberam larvas que perfuram o grão e dele se alimentam durante todo o seu desenvolvimento larval.

Competição intensa é de se esperar entre as larvas dentro do grão. A competição por recursos limitados, durante o período de desenvolvimento larval, pode ter um grande impacto na história de vida e comportamento destes insetos. Duas estratégias distintas de competição intraespecífica, geralmente definidas em termos de utilização de recursos, são conhecidas. Seriam elas a competição por acomodação e a competição por ataque.

Quando ocorre a competição por acomodação todos os membros da população têm acesso semelhante ao recurso disponível, ocorre uma partilha do recurso por parte de todos os competidores possibilitando um aumento na sua sobrevivência. Contudo, o ganho recurso por indivíduo é limitado, o que possibilita a emergência de adultos com baixo peso. Caso o recurso não seja suficiente poderão emergir do grão poucos sobreviventes ou mesmo nenhum.

A competição por ataque representa um contraste à competição por acomodação. No caso da competição por ataque o melhor competidor consegue obter a maior quantidade possível de recurso necessário à sua sobrevivência e reprodução, enquanto que os outros morrem. Isso implica na interferência direta entre as larvas favorecendo a larva dominante, mas prejudicando o desenvolvimento das outras. Tal interferência ou encontro entre larvas pode resultar em agressão ativa e até canibalismo. Esse tipo de competição é a mais provável de ocorrer quando os insetos mostram maior consumo de alimentos e, portanto, maior metabolismo e ganho de peso.

Como a semente trata-se de um sistema fechado onde as larvas não tem aonde buscar alimento, todo o comportamento ocorrido dentro do grão dependerá da espécie praga envolvida e a quantidade de recurso disponível na semente. Assim, para se entender melhor como à competição larval ocorre dentro do grão é importante distinguir entre o comportamento de competição, isto é, o que acontece dentro do grão em termos de competição larval e o consequente resultado disto, que é observado através do número de adultos emergentes do grão.

Não faz muito tempo que para distinguir o tipo de estratégica de competição adotada pelas larvas dentro do grão, o número de ovos colocados no grão pela fêmea era correlacionado com o número de adultos emergentes do grão. Se a fêmea colocasse muitos ovos num único grão e dele emergissem apenas um ou dois adultos, era deduzido que a estratégia de competição neste caso fosse por ataque. Se com o mesmo exemplo emergissem mais insetos, porém menores ou mais leves, era suposto, então, que a estratégia de competição seria por acomodação.

O caso é que essa regra nem sempre é verdadeira e esse resultado da emergência de adultos depende muitas vezes da quantidade de recurso disponível para as larvas. Existem diferentes exceções, e uma delas mostra que em populações de carunchos do caupi como Callosobruchus maculatus (Physiological Entomology, 28 (2003) 298-305) poderá ocorrer competição por ataque ou acomodação dependendo da quantidade de recurso disponível. Caso o recurso seja abundante (grão maior), a população adota a estratégia de acomodação; caso seja escasso (grão menor), o ataque passa a ser a estratégia escolhida. Em outras populações desta mesma espécie apenas a estratégia de competição por acomodação foi observada. Para quem tiver interesse, vale a pena consultar os trabalhos publicados na revista Animal Behaviour (79 (2010) 281–289) em que o caruncho do milho utiliza a estratégia de competição por ataque e o outro no Journal of Economic Entomology (108 (2015) 2098-2106) com o caruncho pequeno do feijão em que a estratégia adotada dentro do grão é a de competição por acomodação.

O importante aqui é distinguir que o que acontece dentro do grão resulta da estratégia de competição larval adotada pela população ou espécie, enquanto que o sai de dentro dele depende da quantidade de recurso requerida para o desenvolvimento do indivíduo em relação disponibilidade de recurso.

A competição larval, no entanto, é mal estudada particularmente para besouros de grãos armazenados e isso ocorre, conforme foi relatado acima, porque as estratégias de competição geralmente são inferidas de seu resultado final e não diretamente observadas. Estudar a competição larval, levando em consideração uma quantidade limitada de recurso, significa entender um pouco mais sobre fenômenos como a seleção natural e a regulação de população entre as espécies, bem como verificar a sua importância econômica devido ao crescimento populacional (sobrevivência e reprodução) das espécies envolvidas e a consequente perda de grãos armazenados.

 

Guedes, N. M. P.

Sempre que um produtor realiza a aplicação de determinado pesticida (inseticida, fungicida, herbicida, etc), todos os organismos da área ficam expostos à uma situação negativa. Entre os organismos, aquele considerado como “alvo” devem ser os mais afetados, e esta é a situação esperada pelo agricultor. Com isso ele pretende tornar o ambiente impróprio para a praga em questão, de modo que a mesma venha a morrer, e sua lavoura cresça mais vigorosa e produtiva. Porém, infelizmente a equação não é tão simples e efeitos adversos surgem com a utilização destes pesticidas, principalmente quando as boas práticas agronômicas não são atentadas.

Quando a utilização destes pesticidas é realizada sem atender a estas boas práticas agronômicas, muitos problemas podem surgir. Problemas como desequilíbrio ecológico, diminuição de inimigos naturais e fitotoxidez podem se tornar corriqueiros, mas a seleção de uma população de praga resistente talvez seja o efeito mais negativo importante. Esta seleção ocorre na forma de um processo e, por isso, demanda um certo tempo de práticas agronômicas erradas para ocorrer. Infelizmente este fato vêm se tornando corriqueiro e, ao contrário do que algumas pessoas pensam, muitas pessoas estão se prejudicando com a seleção de organismos resistentes.

Do produtor rural às multinacionais que fabricam os pesticidas, todos são prejudicados com isso. Por um lado, os produtores rurais enfrentam perdas significativas ao adquirir um produto cuja eficiência está aquém do esperado. Com isto eles perdem tempo e recursos financeiros em algo sem eficiência. Para piorar a situação, numa tentativa de superar esta ineficiência, muitos produtores realizam mais aplicações e aplicações em doses acima do recomendado. E qual o resultado disso tudo? Inúmeros efeitos prejudiciais ao meio ambiente, ao homem e prejuízo financeiro.

Quando levamos este problema para fora da lavoura, os consumidores também podem se prejudicar. Inicialmente podem estar consumindo produtos com resíduo de pesticidas acima do limite aceitável, já que a aplicação de pesticida não seguiu a recomendação do fabricante. Por outro lado, estes consumidores estarão pagando mais caro por este produto, uma vez que o custo para a produção do mesmo foi mais elevado. Mas os prejuízos não acabam por ai!

Saindo mais ainda da lavoura e agora pensando nos produtos (os pesticidas), ainda se tem muita perda envolvida com esta resistência. Indiretamente as multinacionais perdem em visibilidade e propaganda negativa (tais como aquele papo de que o brasileiro consome veneno, chegando a “beber” 7 litros de pesticidas por ano). Surge também com a resistência uma necessidade de substituição de um produto por outro com mecanismo de ação diferente. O que poucos sabem é que os custos e a dificuldade que uma empresa enfrenta para se desenvolver uma nova molécula pesticida, com um novo mecanismo de ação são enormes, chegando na casa dos bilhões. Porém, algumas ações estratégicas precisam ser tomadas para que esta perda seja minimizada.

Seja em ações com produtores rurais, estratégias de venda com comerciantes ou ações estratégicas dentro das grandes empresas, algo precisa ser feito. Todos dentro desta ampla cadeia produtiva precisam de orientações para que, através de uma solução integrada, essa resistência seja minimizada.

Chediak, M.

Muitas espécies de pragas de grãos armazenados como bruquídeos, carunchos, etc. iniciam o seu desenvolvimento dentro de grãos. As fêmeas depositam os seus ovos no grão, estes eclodem e as larvas emergidas começam a se alimentar em apenas um único grão até a emergência do adulto. Assim o recurso disponível para a larva é determinado pelo comportamento da fêmea e, caso esse recurso não seja suficiente, poderá haver o comprometimento da sobrevivência e da reprodução dos indivíduos sujeitos a estas condições.

Esta situação pode ser minimizada se a fêmea, durante o período de postura, considerar a qualidade e o tamanho do grão, o número de ovos já depositados nele e se a deposição destes é espaçada ou não. Caso a fêmea não observe as condições acima e deposite seus ovos aleatoriamente no grão, inclusive em grãos já parasitados, o número e a qualidade da sua progênie poderá ser comprometida pela competição entre as larvas.

Algumas espécies utilizam estratégias diversas para prevenir a competição larval que poderá ocorrer caso os ovos sejam agrupados em poucos grãos. Uma delas é a marcação com feromônios nos grãos alvos para postura ou mesmo a captação da vibração das larvas dentro deles evitando, desta forma, o superparasitismo. Contudo, fêmeas de algumas espécies, como as do caruncho do milho, parecem não ter este tipo de preocupação já que depositam os seus ovos de forma agregada em grãos previamente parasitados por coespecíficos. Existem dúvidas se neste caso as fêmeas discriminam ou não os grãos previamente parasitados. Para alguns pesquisadores as fêmeas do caruncho não marcam os grãos e por isso os agregam os ovos em um mesmo grão, já para outros as fêmeas não só distinguem, bem como, norteiam a preferência para postura em grãos já parasitados. De qualquer forma, esta agregação de ovos no grão é surpreendente porque não está claro qual seria o benefício de tal comportamento para a fêmea e/ou sua progênie. O eventual favorecimento do potencial reprodutivo de fêmeas advindas de grãos superparasitados seria esperado.

A razão pelo qual as fêmeas de algumas espécies divergem quanto a depositar ou não múltiplos ovos no grão e como isto se relaciona a competição das larvas dentro dele tem sido assunto de interesse. O superparasitismo de grãos e consequente limitação de recurso para as larvas em competição poderá interferir na estruturação demográfica e dinâmica populacional dos adultos, características importantes em espécies pragas e que permite reconhecer a importância delas e melhores ferramentas para seu controle.

 

Guedes, N. M. P.